Tuesday, 23 September 2008

A “MINHA” TAXA DE INFLAÇÃO

A “MINHA” TAXA DE INFLAÇÃO
Artigo publicado em 17-01-2007
Autor: Osvaldo Santos Ferreira

O título que escolhi para este artigo pode não parecer estranho para muitos dos leitores, contudo, os leitores mais familiarizados com os termos económicos facilmente detectam o abuso da expressão: a “minha” taxa de inflação. A inflação é igual para todos os agentes económicos embora essa taxa afecte mais uns que outros.

Diz-se que existe inflação quando estamos perante uma subida generalizada e persistente do preço dos bens e serviços de uma economia. Mas então, porquê este título? Pois bem, um destes dias em conversa de café com amigos falávamos dos aumentos anunciados para o início do novo ano. Comentávamos inclusivamente que os 2,1% de taxa de inflação prevista no orçamento do Estado para 2007 era um valor muito baixo e que dificilmente se iria verificar no final do ano. Eis que alguém comenta “pois é, e o pior é que a minha taxa de inflação é muito superior àquela que o governo anunciou!” A risada foi geral. Pelo que já foi dito esta afirmação não está correcta mas tem a sua razão.

A ideia de que a inflação não é igual para todos é muito comum. Normalmente temos tendência a comparar os preços dos bens e serviços que consumimos com maior regularidade. É essa percepção que temos do indicador económico “inflação”. É normal que quando verificamos que os bens e serviços de primeira necessidade como os alimentares, transporte, educação entre outros, sobem acima do valor esperado para a inflação, temos tendência em considerar que a “nossa” taxa de inflação é superior à anunciada. A subida de apenas alguns bens e serviços não significa necessariamente que a taxa de inflação esteja a subir.

Para calcular a taxa de inflação é utilizado um índice de preços no consumidor (IPC), que mais não é que a comparação, todos os meses, dos preços de um “cabaz” de bens e serviços. Até 2002, ano em que entraram em circulação as moedas e notas de euros, o cabaz utilizado em Portugal para medir o IPC comportava cerca de 700 bens e serviços. Após a entrada em circulação do euro começou-se a utilizar um cabaz que contém cerca de 100 bens e serviços. Este cabaz comporta menos bens e serviços que o anterior mas possui bens e serviços idênticos a todos os países da zona euro. Passou-se então a denominar de índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC). Assim, só existe inflação se por comparação, se verificar em média um aumento do preço do referido cabaz de compras.

Voltando à expressão da conversa de café, a sua justificação racional encontra-se numa outra questão que também tem uma abordagem económica. A estrutura de consumo.

Engel (1877), demonstrou que o aumento do rendimento provoca uma modificação na estrutura do consumo. Este estudo, pela sua importância, ficou conhecido pela Lei de Engel. No seu trabalho identificou 3 categorias de bens: os bens inferiores, cujo consumo desce à medida que aumenta o rendimento; os bens normais, cujo consumo aumenta à medida que o rendimento aumenta, mas proporcionalmente menos e, os bens superiores, cujo consumo aumenta mais que proporcionalmente ao aumento do rendimento.

A estrutura do consumo varia conforme a composição do agregado familiar: quanto mais numerosa for a família, maior é o peso das despesas de consumo para a alimentação. A idade dos elementos que compõem cada agregado familiar constitui também um factor que influencia a estrutura de consumo: uma família com uma média de idades elevada tem tendência a privilegiar as despesas da alimentação, saúde e habitação, em detrimento das despesas com o lazer e transporte.

A localização da habitação do agregado familiar influencia também a respectiva estrutura de consumo. As famílias urbanas gastam mais nas despesas com lazer e transportes que as famílias rurais.

Resumindo, Engel demonstrou que o peso das despesas de alimentação nas despesas totais de uma família decresce sempre que o rendimento aumenta.

É precisamente aqui que reside o pensamento racional começado no café. Uma família que não tenha um rendimento disponível muito elevado, vai gastar a maior parte desse rendimento na aquisição de bens e serviços de primeira necessidade. Se, como verificamos no início deste ano, os aumentos são precisamente nesses bens, por exemplo no pão, é infelizmente natural que as famílias com menores rendimentos notem mais esses aumentos. E é precisamente por esse motivo que têm tendência a julgar uma inflação superior à inflação real.

A TAXA DE INFLAÇÃO EM 2006 SITUOU-SE NOS 3,1%

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) em 2006, o Índice de Preços no Consumidor (IPC) registou uma taxa de variação média de 3,1%, valor superior em 0,8 pontos percentuais face a Dezembro de 2005.
O Índice Harmonizado (com os restantes países da União Europeia) de Preços no Consumidor (IHPC) registou em 2006 um aumento de 3,0% face ao ano anterior.

A taxa de inflação reduz o poder de compra dos agentes económicos. Suponha que em Janeiro de 2006 o seu salário era 500 €. Imagine que o seu aumento foi de 1,5%, o que representa um aumento de 7,5 € ficando então com um salário nominal de 507,5 €. Como a taxa de inflação média durante o ano de 2006 foi de 3,1 %, o seu salário real, aquele que representa a quantidade de bens e serviços que efectivamente consegue comprar, foi de 492 €.