A Globalização e a Fuga de Cérebros III
Artigo publicado em 20-11-2007
Artigo publicado em 20-11-2007
Autor: Osvaldo Santos Ferreira
“Uma menor dimensão do sector público requer também, como é óbvio, um menor custo de financiamento o qual permitiria baixar a pressão fiscal sobre os cidadãos”
Quando se procura uma aproximação ao estudo da globalização, o que sobressai de imediato é que se trata de um processo e como tal ele é histórico e dinâmico. A maioria dos autores que estudam a temática da globalização preferem focar o seu interesse no processo relativamente recente onde se evidencia uma interdependência crescente entre o conjunto dos países do mundo e que surge como consequência do aumento do volume e da variedade das transacções fronteiriças de bens e serviços, assim como de fluxos internacionais de capitais e pessoas e pela difusão acelerada e generalizada da tecnologia.
FACTORES EXPLICATIVOS DA GLOBALIZAÇÃO
É conhecido o impacto que o desenvolvimento da informática e das comunicações têm desempenhado no processo da globalização, transformando a economia real em virtual, conseguindo a massificação do consumo e gerando uma cadeia de acontecimentos em virtude da qual primeiro se produz, criando-se depois a necessidade e posteriormente assegura-se a procura, ampliando desta forma os mercados.
A globalização também é devedora dos processos de concentração de capitais industriais e financeiros que permitem investir em projectos de investigação e produção impensáveis à alguns tempos atrás, e os movimentos de desregulação a que se ficaram a dever o suprimento de muitas restrições ao comércio e dos controles nacionais.
São várias as circunstâncias que se consideram como favorecedoras da globalização. A saber:
-O aparecimento de novos gigantes do comércio – a União Europeia e o Japão – que limitaram o poder hegemónico dos Estados Unidos e facilitaram a criação de fluxos bidireccionais e o abandono dos regimes independentes ao propiciar o aumento das relações comerciais e permitir a sobrevivência de muitos países que não seriam capazes de sobreviver noutras circunstâncias porque a sua abertura ao exterior lhes permite ser competitivos em determinadas actividades mas que devido ao seu tamanho e à sua reduzida capacidade económica os havia excluído do circuito internacional num contexto de menor abertura;
- A consolidação de vantagens de uma localização central e o empobrecimento da periferia que assegura a expansão do capital;
- O aparecimento de instituições de carácter supranacional, cuja actuação contribuiu grandemente para a criação de uma moldura normativa de âmbito quase universal;
- O fenómeno transnacional que provocou um abalo na soberania dos Estados ao relativizar as suas fronteiras territoriais e minar a eficácia das suas acções;
- O aumento da poupança e com ela o surgimento e consolidação do Estado de Bem-estar, assente na generosidade dos países desenvolvidos que contribuem atraindo a população dos países mais pobres.
Em suma, a globalização tal como a conhecemos apresenta-se como a etapa final mas não a última porque no futuro, certamente, revestirá novos perfis e adquirirá novas dimensões de um lento processo influenciado por factores de natureza e importância diversa e que se manifesta a diversos níveis: económico, cultural, ecológico, ideológico e financeiro.
CONSEQUÊNCIAS DA GLOBALIZAÇÃO
A globalização das economias provoca o aumento dos fluxos comerciais que se reflectem na importância crescente dos intercâmbios de componentes e do comércio intra-industrial. Estas trocas têm associadas novos ajustes nas estruturas produtivas dos diferentes países – a vantagem comparativa é internacionalizada – traduzindo-se em ganhos de eficiência e produtividade. Desta forma as possibilidades de crescimento ampliam-se. A maior importância dos fluxos monetários e a virtualização das economias faz com que estas se desliguem dos seus vínculos materiais e dependam cada vez mais das inovações tecnológicas, surgindo uma nova sujeição que chega inclusivamente a escravizar a economias desenvolvidas: a dependência tecnológica.
A ampliação dos mercados permite aproveitar as vantagens das economias de escala e da massificação do consumo que facilita a expansão da procura e incrementa as possibilidades de crescimento.
A maior mobilidade do capital e a sua transnacionalização dá lugar a uma poupança mundial mais eficiente, e também a uma maior mobilidade da mão-de-obra, unida e favorecida pela mobilidade daquele factor, provocando uma deterioração das condições de trabalho não apenas nos países em desenvolvimento como consequência de um dumping social, como também nos mais desenvolvidos onde são frequentes os abusos no momento da contratação dos imigrantes e daqueles cujo poder reivindicativo é quase nulo.
Com a globalização os países perderam autonomia no momento de definir a sua política económica: não podem actuar livremente sobre as taxas de câmbio, nem sobre as taxas de juro porque se se verificarem desfasamentos significativos entre os vários países, o mais certo é que se assista a deslocações da poupança que colocariam em perigo o crescimento e a procura interna. Esta dependência exterior torna muito mais vulneráveis as economias nacionais, provocando crises sistémicas como as verificadas em países como o Brasil, México e o Japão.
Porém, estes efeitos não se distribuem uniformemente por todos os países envolvidos. O mais frequente é que apareçam novas assimetrias na repartição dos custos e dos benefícios. Esses efeitos tendem a concentrar-se nos países mais pobres, agravando as diferenças entre o norte desenvolvido e o sul empobrecido ou entre o centro e a periferia.
Os benefícios concentram-se nos países mais desenvolvidos, embora no seu interior esses benefícios não se repartam de igual forma por todos os factores produtivos como consequência da diferença de liberdade de circulação dos mesmos: mais uma vez o capital leva a melhor sobre o trabalho e, especialmente, o menos qualificado é ao mesmo tempo o menos móvel. Desta forma, no centro aparecem problemas de coesão social, o mercado de trabalho segmenta-se ou dualiza-se, que se manifestam com grande rapidez com atitudes de recusa até à chegada de trabalhadores imigrantes que são vistos como rivais directos para conseguir alguns postos de trabalho que, mesmo mal retribuídos, são os únicos a que podem aceder os níveis mais baixos de qualificação de mão-de-obra.
São frequentemente atribuídos à globalização os efeitos nocivos no meio ambiente como consequência da sobre-exploração dos recursos naturais, mas por outro lado a crescente competição internacional que resulta da globalização gerou uma maior preocupação e o interesse pelo cumprimento das normas ambientais internacionais na medida em que a excelência ambiental é mais um factor de competitividade entre as empresas e os produtos.
A globalização pode dar um contributo positivo nas vantagens comparativas ambientais, como a utilização sustentável do capital natural (meio ambiente) de valor económico, ecológico e estético, histórico e científico, para que seja possível realizar pesquisas científicas que os países individualmente não poderiam levar a cabo. Também é certo que as acções isoladas nesta matéria podem perder toda a sua efectividade tendo em conta que as economias externas negativas derivadas da degradação do meio ambiente só podem ser atacadas se os países empreenderem um esforço coordenado neste campo.
É extremamente importante que a comunidade internacional tome consciência que uma envolvente mais saudável melhora o rendimento dos trabalhadores e a saúde da população em geral, reduzindo dessa forma os gastos com a saúde pública, libertando assim recursos públicos para outros efeitos.
Existe um gap entre o Estado nação e a sociedade global como consequência da ruptura entre o poder económico e o poder político. Importa reconhecer também que a globalização permite a sobrevivência de Estados pequenos que na ausência de comércio e sem a ajuda dos fundos internacionais não seriam viáveis. Facilitou a propagação dos processos democráticos por todo o mundo. Porém, a globalização estimulou o ressurgimento do nacionalismo e dos movimentos separatistas.
Esta tensão que se produz entre a divulgação dos mesmos valores e ideologias que de forma pejorativa denominamos de pensamento único, e o desejo de por em evidência as diferenças constitutivas e de identidade dos povos, entre o global e o local, é a que torna aconselhável a elaboração de um novo conceito que acolha este peculiar situação: o conceito de globalização.
As mudanças verificadas na legitimação do Estado para actuar procuram um ressurgimento do conceito de soberania num mundo interdependente e coloca em relevo a transformação que ocorreu no protagonismo dos organismos internacionais, que vão assumindo competências até aqui reservadas às políticas nacionais com o objectivo de sanear o deficit de segurança de que padecem os governos nacionais e a volatilidade das suas decisões. Deste modo, uma menor dimensão do sector público requer também, como é óbvio, um menor custo de financiamento o qual permitiria baixar a pressão fiscal sobre os cidadãos, libertando-se assim os recursos para o sector privado da economia e favorecendo a competitividade a nível internacional.
No próximo número: Os Movimentos Populacionais e a Fuga de Cérebros.
Quando se procura uma aproximação ao estudo da globalização, o que sobressai de imediato é que se trata de um processo e como tal ele é histórico e dinâmico. A maioria dos autores que estudam a temática da globalização preferem focar o seu interesse no processo relativamente recente onde se evidencia uma interdependência crescente entre o conjunto dos países do mundo e que surge como consequência do aumento do volume e da variedade das transacções fronteiriças de bens e serviços, assim como de fluxos internacionais de capitais e pessoas e pela difusão acelerada e generalizada da tecnologia.
FACTORES EXPLICATIVOS DA GLOBALIZAÇÃO
É conhecido o impacto que o desenvolvimento da informática e das comunicações têm desempenhado no processo da globalização, transformando a economia real em virtual, conseguindo a massificação do consumo e gerando uma cadeia de acontecimentos em virtude da qual primeiro se produz, criando-se depois a necessidade e posteriormente assegura-se a procura, ampliando desta forma os mercados.
A globalização também é devedora dos processos de concentração de capitais industriais e financeiros que permitem investir em projectos de investigação e produção impensáveis à alguns tempos atrás, e os movimentos de desregulação a que se ficaram a dever o suprimento de muitas restrições ao comércio e dos controles nacionais.
São várias as circunstâncias que se consideram como favorecedoras da globalização. A saber:
-O aparecimento de novos gigantes do comércio – a União Europeia e o Japão – que limitaram o poder hegemónico dos Estados Unidos e facilitaram a criação de fluxos bidireccionais e o abandono dos regimes independentes ao propiciar o aumento das relações comerciais e permitir a sobrevivência de muitos países que não seriam capazes de sobreviver noutras circunstâncias porque a sua abertura ao exterior lhes permite ser competitivos em determinadas actividades mas que devido ao seu tamanho e à sua reduzida capacidade económica os havia excluído do circuito internacional num contexto de menor abertura;
- A consolidação de vantagens de uma localização central e o empobrecimento da periferia que assegura a expansão do capital;
- O aparecimento de instituições de carácter supranacional, cuja actuação contribuiu grandemente para a criação de uma moldura normativa de âmbito quase universal;
- O fenómeno transnacional que provocou um abalo na soberania dos Estados ao relativizar as suas fronteiras territoriais e minar a eficácia das suas acções;
- O aumento da poupança e com ela o surgimento e consolidação do Estado de Bem-estar, assente na generosidade dos países desenvolvidos que contribuem atraindo a população dos países mais pobres.
Em suma, a globalização tal como a conhecemos apresenta-se como a etapa final mas não a última porque no futuro, certamente, revestirá novos perfis e adquirirá novas dimensões de um lento processo influenciado por factores de natureza e importância diversa e que se manifesta a diversos níveis: económico, cultural, ecológico, ideológico e financeiro.
CONSEQUÊNCIAS DA GLOBALIZAÇÃO
A globalização das economias provoca o aumento dos fluxos comerciais que se reflectem na importância crescente dos intercâmbios de componentes e do comércio intra-industrial. Estas trocas têm associadas novos ajustes nas estruturas produtivas dos diferentes países – a vantagem comparativa é internacionalizada – traduzindo-se em ganhos de eficiência e produtividade. Desta forma as possibilidades de crescimento ampliam-se. A maior importância dos fluxos monetários e a virtualização das economias faz com que estas se desliguem dos seus vínculos materiais e dependam cada vez mais das inovações tecnológicas, surgindo uma nova sujeição que chega inclusivamente a escravizar a economias desenvolvidas: a dependência tecnológica.
A ampliação dos mercados permite aproveitar as vantagens das economias de escala e da massificação do consumo que facilita a expansão da procura e incrementa as possibilidades de crescimento.
A maior mobilidade do capital e a sua transnacionalização dá lugar a uma poupança mundial mais eficiente, e também a uma maior mobilidade da mão-de-obra, unida e favorecida pela mobilidade daquele factor, provocando uma deterioração das condições de trabalho não apenas nos países em desenvolvimento como consequência de um dumping social, como também nos mais desenvolvidos onde são frequentes os abusos no momento da contratação dos imigrantes e daqueles cujo poder reivindicativo é quase nulo.
Com a globalização os países perderam autonomia no momento de definir a sua política económica: não podem actuar livremente sobre as taxas de câmbio, nem sobre as taxas de juro porque se se verificarem desfasamentos significativos entre os vários países, o mais certo é que se assista a deslocações da poupança que colocariam em perigo o crescimento e a procura interna. Esta dependência exterior torna muito mais vulneráveis as economias nacionais, provocando crises sistémicas como as verificadas em países como o Brasil, México e o Japão.
Porém, estes efeitos não se distribuem uniformemente por todos os países envolvidos. O mais frequente é que apareçam novas assimetrias na repartição dos custos e dos benefícios. Esses efeitos tendem a concentrar-se nos países mais pobres, agravando as diferenças entre o norte desenvolvido e o sul empobrecido ou entre o centro e a periferia.
Os benefícios concentram-se nos países mais desenvolvidos, embora no seu interior esses benefícios não se repartam de igual forma por todos os factores produtivos como consequência da diferença de liberdade de circulação dos mesmos: mais uma vez o capital leva a melhor sobre o trabalho e, especialmente, o menos qualificado é ao mesmo tempo o menos móvel. Desta forma, no centro aparecem problemas de coesão social, o mercado de trabalho segmenta-se ou dualiza-se, que se manifestam com grande rapidez com atitudes de recusa até à chegada de trabalhadores imigrantes que são vistos como rivais directos para conseguir alguns postos de trabalho que, mesmo mal retribuídos, são os únicos a que podem aceder os níveis mais baixos de qualificação de mão-de-obra.
São frequentemente atribuídos à globalização os efeitos nocivos no meio ambiente como consequência da sobre-exploração dos recursos naturais, mas por outro lado a crescente competição internacional que resulta da globalização gerou uma maior preocupação e o interesse pelo cumprimento das normas ambientais internacionais na medida em que a excelência ambiental é mais um factor de competitividade entre as empresas e os produtos.
A globalização pode dar um contributo positivo nas vantagens comparativas ambientais, como a utilização sustentável do capital natural (meio ambiente) de valor económico, ecológico e estético, histórico e científico, para que seja possível realizar pesquisas científicas que os países individualmente não poderiam levar a cabo. Também é certo que as acções isoladas nesta matéria podem perder toda a sua efectividade tendo em conta que as economias externas negativas derivadas da degradação do meio ambiente só podem ser atacadas se os países empreenderem um esforço coordenado neste campo.
É extremamente importante que a comunidade internacional tome consciência que uma envolvente mais saudável melhora o rendimento dos trabalhadores e a saúde da população em geral, reduzindo dessa forma os gastos com a saúde pública, libertando assim recursos públicos para outros efeitos.
Existe um gap entre o Estado nação e a sociedade global como consequência da ruptura entre o poder económico e o poder político. Importa reconhecer também que a globalização permite a sobrevivência de Estados pequenos que na ausência de comércio e sem a ajuda dos fundos internacionais não seriam viáveis. Facilitou a propagação dos processos democráticos por todo o mundo. Porém, a globalização estimulou o ressurgimento do nacionalismo e dos movimentos separatistas.
Esta tensão que se produz entre a divulgação dos mesmos valores e ideologias que de forma pejorativa denominamos de pensamento único, e o desejo de por em evidência as diferenças constitutivas e de identidade dos povos, entre o global e o local, é a que torna aconselhável a elaboração de um novo conceito que acolha este peculiar situação: o conceito de globalização.
As mudanças verificadas na legitimação do Estado para actuar procuram um ressurgimento do conceito de soberania num mundo interdependente e coloca em relevo a transformação que ocorreu no protagonismo dos organismos internacionais, que vão assumindo competências até aqui reservadas às políticas nacionais com o objectivo de sanear o deficit de segurança de que padecem os governos nacionais e a volatilidade das suas decisões. Deste modo, uma menor dimensão do sector público requer também, como é óbvio, um menor custo de financiamento o qual permitiria baixar a pressão fiscal sobre os cidadãos, libertando-se assim os recursos para o sector privado da economia e favorecendo a competitividade a nível internacional.
No próximo número: Os Movimentos Populacionais e a Fuga de Cérebros.
