Autor: Osvaldo Santos Ferreira
A ciência e a tecnologia exercem uma influência crescente na sociedade e na economia. Os avanços científicos continuam a expandir a fronteira do conhecimento, contribuindo com isso para o progresso tecnológico que afecta a forma de vida e de trabalho das populações. As novas tecnologias baseadas na ciência ajudam a proteger o meio ambiente, a construir lugares, escolas e fábricas mais seguras, assim como a desenvolver sistemas de transporte que economizam energia.
O conhecimento em tempo real e a redução da duração e dos custos de deslocação que proporcionam os avanços nas comunicações estimulam os deslocamentos voluntários da população como também acontece com o aumento da diferença do nível de desenvolvimento dos diversos países como consequência da globalização.
O fenómeno migratório é uma das consequências da globalização e este é tão mais preocupante porquanto contribui como uma barreira para o desenvolvimento dos países emissores desses fluxos populacionais. Tão ou mais importante que a própria migração enquanto conceito generalizado a todos os níveis de instrução da população, a mais preocupante é aquela que é constituída por activos com um elevado nível de educação a que chamamos a fuga de cérebros.
Este termo que deriva do inglês “Brain Drain” é um factor que contribui decisivamente para travar o crescimento e desenvolvimento económico dos países de origem destes emigrantes. De uma forma muito sintética e muito simplista este processo traduz-se numa ineficiência no aproveitamento dos recursos empregues na educação da população. Essa ineficiência leva a que os jovens altamente qualificados “sejam forçados” a procurar emprego noutros países porque a estrutura económica do seu país não consegue absorver essa mão-de-obra altamente especializada.
Neste e em próximos artigos procurarei apresentar uma caracterização do fenómeno migratório no contexto da globalização, identificando quais as principais causas que conduzem a este facto, bem assim, o enquadramento da migração na globalização e os factores explicativos para os movimentos populacionais, apresentando também alguns dados sobre a fuga de cérebros para os Estados Unidos e para outros países da OCDE.
A MIGRAÇÃO
Assiste-se a um intenso debate em que aparecem dois temas recorrentes: a globalização por um lado e os movimentos migratórios por outro. Se analisarmos os actuais movimentos migratórios podemos constatar que em termos quantitativos representam cerca de 3% da população mundial. A falta de previsão e a ausência de controlo em muitos casos deu lugar ao surgimento de novos problemas, tanto económicos como humanos, porque o transvaze do capital humano inerente aos mesmos afecta a produtividade dos restantes factores e, por conseguinte, a capacidade de crescimento dos países envolvidos, ao mesmo tempo que dá lugar a situações conflituosas como a xenofobia que se gera devido ao choque cultural com a população residente nos lugares de destino.
Os fluxos migratórios já tiveram uma importância maior, em percentagem, noutras alturas da história. Mas os fluxos actuais revestem-se de características relativamente diferentes. Um desses aspectos é a diversificação dos países de destino, ou se preferirmos, a deslocalização dos movimentos. Assiste-se mesmo ao reverso que alguns países sofreram quando deixaram de ser emissores para passarem a ser receptores líquidos de população. Portugal é um exemplo desses países. Na década de 60/70 uma grande parte da população emigrou e agora somos nós que recebemos emigrantes oriundos dos mais variados pontos do globo.
O contexto em que se desenvolvem estes fluxos também é bastante diferente. O desenvolvimento da tecnologia e das comunicações não só facilita a vida dos deslocados como também permite que estes se mantenham em contacto constante com o seu país de origem. Para além disso, a forma como a informação se difunde hoje em dia permite um conhecimento em tempo real do que acontece em qualquer canto do mundo, inclusivamente permite despertar o interesse por determinadas regiões que se apresentam como locais onde se pode obter uma melhor qualidade de vida e melhores condições de trabalho.
A globalização da economia contribui também para aumentar a liberdade de movimentos ao mesmo tempo que se transforma num factor estimulante para a migração tanto do ponto de vista macroeconómico – a migração pode ver-se como produto da internacionalização do capital, desempenhando um papel primordial na política de competência ou de cooperação ao desenvolvimento – como também ao nível microeconómico – na medida em que as expectativas do facto migratório formam-se com base na informação sobre a diversidade, as taxas de desemprego e as vagas existentes ou nos preços e nos índices relativos de crescimento da economia. O papel da globalização sobre os movimentos populacionais não se refere apenas a aspectos como, mais informação, melhores comunicações, mais intercâmbio, como também, a processos de concentração empresarial – monopólios e oligopólios que funcionam em regime monopolístico – que podem dar lugar ao surgimento de desigualdades e por conseguinte, novos motivos para emigrar.
A actual emigração produz-se a partir do momento em que o fim da guerra-fria esbateu muitas barreiras ideológicas aos fluxos internacionais da população, mas também coincide com o ressurgimento de tensões nacionalistas que deram lugar a limpezas étnicas e a movimentos forçosos da população.
Os deslocamentos populacionais que predominam actualmente são espontâneos, tem um carácter voluntário, motivações fundamentalmente económicas e são considerados necessários tendo em conta que aliviam as pressões demográficas derivadas pelos diferentes ritmos da evolução da população dos países de origem e de destino.
Os movimentos de população, actualmente, estão fortemente concentrados, mas importa referir que os países envolvidos não são os mesmos que outrora. Os lugares de origem e de destino são relativamente escassos. Para esta concentração contribui o que se denomina de redes de acolhimento.
Os principais países receptores em percentagem da população são: a Austrália (21%), Canadá (17%) e Estados Unidos (9,8%), embora, como é evidente, este último em termos absolutos é o país que mais estrangeiros recebe, estimando-se em cerca de 800.000 emigrantes ano. Um aspecto que se considera curioso e que rompe de alguma forma com o que era frequente observar-se nas décadas de 60/70 é que cerca de 50% destes imigrantes são mulheres, e há também um predomínio de gente jovem. Importa salientar que não são os mais pobres que emigram mas sim aqueles que reúnem condições para uma integração mais rápida no país de acolhimento. As taxas de emigração dos países mais pobres são na sua grande parte as mais baixas, no entanto, estas tendem a aumentar ao passo que o país se vai desenvolvendo. Ou seja, aumentam com o grau de desenvolvimento dos países emissores já que os processos migratórios requerem bastante capital humano e social pelo que essa disponibilidade apenas aparece com o desenvolvimento.
No próximo número: Causas das Migrações e A Globalização Como Um Processo Facilitador da Migração.
