Saturday, 11 October 2008

A Visão Estratégica da China Face à Política Externa

Artigo publicado em 26-06-2008
Autor: Osvaldo Santos Ferreira


A China é actualmente a quarta maior economia mundial. Em 2006 o PIB era na ordem dos 2,7 triliões de dólares e há cinco anos sucessivos que regista taxas de crescimento de dois dígitos. De acordo com os últimos dados disponíveis1, em 2007, a taxa de crescimento foi superior a 11%. O PIB per capita foi pouco mais que 1700 dólares2 o que coloca o país em 110.º lugar, com um dos valores mais baixos do rendimento por habitante. A população total nesse ano já era superior a 1,3 biliões da qual, cerca de 56% residia em meios rurais. A China concentra cerca de um quarto da população mundial.

Em apenas 3 anos – 2001 a 2004 – as importações Chinesas duplicaram, sendo actualmente um dos maiores importadores mundiais. Em 2004, em valor, as suas importações eram superiores a 600 biliões de dólares. No que respeita às exportações, prevê-se que a China venha a ocupar em 2008 o lugar de primeiro exportador mundial, ocupado em 2007 pela Alemanha. O crescimento das exportações está relacionado com a concentração de empresas, financiadas directamente por outros países, localizadas no sul da China. Estimam-se mais de 400 mil empresas estrangeiras que laboram como manufacturas para o mundo inteiro. Em 2006 as exportações ascenderam a 969 biliões de dólares, um crescimento de 27% face ao ano anterior. Para se ter uma ideia mais precisa da importância das exportações, as estimativas indicam que as exportações líquidas contribuíram em 26% para o Produto Interno Bruto (PIB) que registou um crescimento de 11,5% em 2007.

Após 15 anos de negociações, em 2001, a China foi admitida como membro da Organização Mundial do Comércio (OMC). Esta data marca um momento importante no comércio internacional. Uma consequência directa do acesso da China à OMC foi a redução de tarifas e algumas barreiras à importação.

A estratégia da China, actualmente, mantém os cinco princípios acordados com a Índia em 1954, baseados numa política externa independente. A saber: respeito mútuo à soberania e integridade territorial, princípio de não agressão, a não intervenção nos assuntos internos dos outros, a igualdade e benefício recíproco e, a coexistência pacífica. Estas são as características mais importantes que consubstanciam uma estratégia onde o objectivo principal é obter um poder global3.

A visão da China para a sua política internacional está intimamente relacionada com o pensamento realista das relações internacionais, i.e., têm uma visão do mundo de certa forma regionalizado permitindo delinear estratégias de distribuição do poder. Uma perspectiva do mundo apoiada na convicção de que tudo está dependente das interacções entre estados soberanos, onde as redes multilaterais e transnacionais são sustentadas nos mesmos. Desta forma o objectivo passa por alcançar vantagens no ambiente envolvente de forma a maximizar o interesse nacional4 dando particular ênfase ao desenvolvimento económico e tecnológico, firmando as crenças de que a política mundial é caracterizada pela competição nos planos: tecnológico, económico, militar e político.

Durante o período de Deng Xiaopoing a China estabeleceu uma política externa de acordo com a situação interna e externa do momento. O surgimento do pragmatismo que implicou um redireccionamento da importância da política para a economia como factor determinante para a política externa; a necessidade de uma estratégia que permita garantir a segurança e a paz de forma a focalizar todas as energias para a modernização económica; o abandono do conceito de triângulo estratégico, concebido com os Estados Unidos, União Soviética e China.

No início dos anos 70 a China teve que mudar de estratégia tendo em conta a aproximação Americana. Dessa forma o conceito triangular conhecido pelo triângulo de ferro passou a triângulo flexível. Com os desmoronamento da União Soviética, a estratégia triangular desapareceu por completo.

Como consequência dos incidentes de Tiananmen a China foi como que forçada a um isolamento internacional, centrando as suas orientações estratégicas para o plano regional. Começou a centrar-se cada vez mais na área Ásia-Pacífico. Esta capacidade de adaptação, como consequência de um ambiente externo menos favorável, conduziu a China a impulsionar a multipolaridade. Esta acção começou com o distanciamento dos Estados Unidos da América e a aproximação da União Soviética, que havia começado paulatinamente após a guerra fria e acentuou-se mais notoriamente no final da década de 90. Pretendia com esta acção uma associação estratégica entre este países.



1989 Tiananmen Square Protests



Desde a década de 70, altura em que a China iniciou um importante período de reformas, operaram-se grandes mudanças não apenas a nível económico, como também, no que respeita à estratégia em relação ao Leste da Ásia como um todo. As orientações da China para procurar um equilíbrio do poder com as potências externas tornaram-na um elemento fragilizado. Contudo, a sua capacidade de adaptação e a definição de orientações estratégicas precisas, com o objectivo de construir um mundo multipolar, levaram a China a requerer das estruturas multilaterais uma compensação pela forte presença dos Estados Unidos. Com isto, consegue um forte apoio para iniciativas multilaterais, em particular, aquelas que promovem uma maior cooperação económica.

Os objectivos estratégicos da China mudaram significativamente após a guerra fria e foram reorientados para as associações estratégicas bilaterais de forma a melhorar a cooperação e coordenação de assuntos internacionais e de integração económica. A China procura desta forma encontrar consensos com diversos países, promovendo a multipolaridade e o multilateralismo, como forma de concorrer com o Estados Unidos e diminuir a influência Tailandesa.

Um outro eixo estratégico da China passa pelo fortalecimento dos vínculos militares com os países da região, no contexto de competição estratégica com os Estados Unidos. Desta forma procura melhorar a sua segurança energética através do investimento na exploração e exportação de petróleo e outros recursos.

A China procura também, com a sua estratégia, fortalecer os vínculos económicos através de acordos de comércio livre e através do desenvolvimento de acordos em organizações multilaterais. É interessante perceber como a China tem em conta critérios estratégicos amplos que lhe permitem tirar partido de todos os acordos bilaterais, ainda que estabelecidos com pequenas economias.

Em suma, é também nesta atitude e visão estratégica que reside o sucesso da China. Importa referir que contrariamente ao que se costuma ouvir, a China não é um país emergente, mas sim um país que está a reposicionar-se no contexto global e as suas estratégias têm-se revelado bastante eficazes e eficientes.