A Globalização e a Fuga de Cérebros II
Artigo publicado em 6-10-2007
Artigo publicado em 6-10-2007
Autor: Osvaldo Santos Ferreira
“A complexidade do processo de globalização manifesta-se não apenas na sua génese e consequências, como também no sucesso de que no seu seio coabitam duas forças de sentido contrário”
No número anterior vimos que a migração dos dias de hoje é relativamente diferente daquela que se verificou nos anos 60 e 70. Hoje, cerca de metade dos migrantes são mulheres e há também um grande predomínio de gente jovem. Já não são os mais pobres que emigram, mas sim aqueles que detêm as melhores condições para uma mais rápida integração na comunidade de acolhimento.
CAUSAS DAS MIGRAÇÕES
Existe um enorme rol de causas sobre as quais incidem o fenómeno migratório: As que actuam como elementos de expulsão e as que se comportam como factores de atracção. Na decisão de emigrar, que é acima de tudo uma decisão individual, intervêm variáveis de diversas naturezas.
É um facto inegável que as condições estruturais dos países de destino intervêm neste processo, como as possibilidades de obter um emprego condigno com a formação que cada pessoa possui, os salários e as condições de vida associadas ao mesmo. Porém, as diferenças de riqueza entre os estados podem não justificar por si só as migrações, assim como estas podem ter a sua origem numa história de contactos e nas assimetrias de poder da sociedade emissora e receptora de mão-de-obra, na ausência de concorrentes nacionais com quem competir pelo trabalho desejado, na legislação mais ou menos permissiva que vigore. Ou seja, os movimentos são assimétricos porque nem sempre os países têm as mesmas barreiras legais à entrada e à saída de pessoas, na proximidade geográfica e ou cultural com o lugar de origem, na existência de amplos sistemas de bem-estar social nos lugares de destinos, entre outras.
Se as condições estruturais intervêm neste processo, as circunstâncias socioeconómicas dos países de procedência, vítimas de fortes pressões demográficas, da sobre-exportação de recursos e piores expectativas, com uma estrutura produtiva apenas assente na agricultura, com um suporte social manifestamente insuficiente para fazer frente à pobreza e aos desastres naturais, e com um ambiente político-social em que a paz não abunda, os regimes políticos autoritários, corruptos e fortemente violadores dos direitos humanos, são também factores que impulsionam a emigração.
Em suma, se a este contraste que origina a escolha entre permanecer no país de origem ou mudar-se para um outro que apresenta melhores horizontes de bem-estar, onde se podem satisfazer as necessidades de uma população submetida a grandes privações e frustrações e sem possibilidade para realizar as suas expectativas de progresso e enriquecimento não só pessoal como também familiar, se se aliar também a existência de uma rede de acolhimento e um grau razoável de aceitabilidade no país de destino, nomeadamente que facilite o reagrupamento familiar e reconheça o acesso a certos serviços sociais básicos como a educação, a habitação e saúde, temos praticamente todos os ingredientes para afirmar que as bases para que se produzam os movimentos populacionais estão alicerçadas.
Os movimentos migratórios são coadjuvados pela globalização que propicia a generalização de meios de transporte mais rápidos e baratos, bem assim, redes de comunicações que facilitam a transmissão de informação, agilizando e tornando mais económicos os contactos com o lugar e as pessoas do país de origem.
A GLOBALIZAÇÃO COMO UM PROCESSO FACILITADOR DA MIGRAÇÃO
É notório que os movimentos populacionais sofreram não apenas um importante impulso, como também, profundas transformações como consequência da crescente globalização das economias. Este fenómeno recorrente na nossa vida é um processo complexo e cujo estádio actual tem uma importância estratégica ao nível do desenvolvimento das comunicações e dos recentes descobrimentos tecnológicos. Estes últimos, são precisamente aqueles que estimulam e favorecem os movimentos da população.
A globalização e os movimentos populacionais são duas das consequências lógicas dos novos fluxos de comunicação e informação, que permitem realizar transacções quase em simultâneo e quase sem custos mesmo entre lugares muito distantes geograficamente e possibilitam o conhecimento em tempo real do que se passa a milhares de quilómetros. A globalização e os movimentos populacionais parecem alimentar-se reciprocamente. A globalização favorece os fluxos populacionais e estes contribuem para que a globalização avance de forma imparável.
Tal como as migrações, a globalização é um fenómeno complexo. A sua complexidade manifesta-se não apenas nos factores que a propiciam, como também nas suas manifestações tendo em conta que se fala de uma cultura global, de crises globais, do pensamento único, conflitos globais, um mercado global, a deterioração global do meio ambiente.
Quando se procura uma aproximação ao estudo da globalização, o que sobressai de imediato é que se trata de um processo e como tal ele é histórico e dinâmico. A maioria dos autores que estudam a temática da globalização preferem focar o seu interesse no processo relativamente recente onde se evidencia uma interdependência crescente entre o conjunto dos países do mundo e que surge como consequência do aumento do volume e da variedade das transacções fronteiriças de bens e serviços, assim como de fluxos internacionais de capitais e pessoas e pela difusão acelerada e generalizada da tecnologia.
A globalização apresenta-se como o resultado natural de outros acontecimentos prévios: a internacionalização e a transnacionalização, e no seu desenvolvimento três etapas bastante diferenciadas:
A primeira decorre no período compreendido entre o final da II Guerra Mundial e o início dos anos 70 quando à crise do sistema de Bretton Woods se junta o impacto negativo do primeiro choque petrolífero, coincidindo com uma etapa de grande mobilidade de capitais e com o fim dos anos de ouro do crescimento dos países industrializados.
A segunda caracteriza-se pelo grande esforço para desenvolver instituições internacionais de cooperação financeira e comercial, assim como pelo auge do comércio de manufacturas e a coexistência de vários modelos de organização económica.
A terceira e última etapa, com uma considerável presença de empresas transnacionais e uma ampla mobilidade dos capitais, pretendeu homogeneizar os modelos de desenvolvimento, outorgando um protagonismo quase absoluto ao mercado, sobre tudo depois da derrocada dos últimos redutos dos regimes de economia planificada.
A complexidade do processo de globalização manifesta-se não apenas na sua génese e consequências, como também no sucesso de que no seu seio coabitam duas forças de sentido contrário: por um lado, tem-se a homogeneização, por outro, permite-se e fomenta-se a diferenciação e reordenam-se as desigualdades sem se chegar a suprimi-las.
No próximo número: Factores Explicativos da Globalização e Consequências da Globalização.
No número anterior vimos que a migração dos dias de hoje é relativamente diferente daquela que se verificou nos anos 60 e 70. Hoje, cerca de metade dos migrantes são mulheres e há também um grande predomínio de gente jovem. Já não são os mais pobres que emigram, mas sim aqueles que detêm as melhores condições para uma mais rápida integração na comunidade de acolhimento.
CAUSAS DAS MIGRAÇÕES
Existe um enorme rol de causas sobre as quais incidem o fenómeno migratório: As que actuam como elementos de expulsão e as que se comportam como factores de atracção. Na decisão de emigrar, que é acima de tudo uma decisão individual, intervêm variáveis de diversas naturezas.
É um facto inegável que as condições estruturais dos países de destino intervêm neste processo, como as possibilidades de obter um emprego condigno com a formação que cada pessoa possui, os salários e as condições de vida associadas ao mesmo. Porém, as diferenças de riqueza entre os estados podem não justificar por si só as migrações, assim como estas podem ter a sua origem numa história de contactos e nas assimetrias de poder da sociedade emissora e receptora de mão-de-obra, na ausência de concorrentes nacionais com quem competir pelo trabalho desejado, na legislação mais ou menos permissiva que vigore. Ou seja, os movimentos são assimétricos porque nem sempre os países têm as mesmas barreiras legais à entrada e à saída de pessoas, na proximidade geográfica e ou cultural com o lugar de origem, na existência de amplos sistemas de bem-estar social nos lugares de destinos, entre outras.
Se as condições estruturais intervêm neste processo, as circunstâncias socioeconómicas dos países de procedência, vítimas de fortes pressões demográficas, da sobre-exportação de recursos e piores expectativas, com uma estrutura produtiva apenas assente na agricultura, com um suporte social manifestamente insuficiente para fazer frente à pobreza e aos desastres naturais, e com um ambiente político-social em que a paz não abunda, os regimes políticos autoritários, corruptos e fortemente violadores dos direitos humanos, são também factores que impulsionam a emigração.
Em suma, se a este contraste que origina a escolha entre permanecer no país de origem ou mudar-se para um outro que apresenta melhores horizontes de bem-estar, onde se podem satisfazer as necessidades de uma população submetida a grandes privações e frustrações e sem possibilidade para realizar as suas expectativas de progresso e enriquecimento não só pessoal como também familiar, se se aliar também a existência de uma rede de acolhimento e um grau razoável de aceitabilidade no país de destino, nomeadamente que facilite o reagrupamento familiar e reconheça o acesso a certos serviços sociais básicos como a educação, a habitação e saúde, temos praticamente todos os ingredientes para afirmar que as bases para que se produzam os movimentos populacionais estão alicerçadas.
Os movimentos migratórios são coadjuvados pela globalização que propicia a generalização de meios de transporte mais rápidos e baratos, bem assim, redes de comunicações que facilitam a transmissão de informação, agilizando e tornando mais económicos os contactos com o lugar e as pessoas do país de origem.
A GLOBALIZAÇÃO COMO UM PROCESSO FACILITADOR DA MIGRAÇÃO
É notório que os movimentos populacionais sofreram não apenas um importante impulso, como também, profundas transformações como consequência da crescente globalização das economias. Este fenómeno recorrente na nossa vida é um processo complexo e cujo estádio actual tem uma importância estratégica ao nível do desenvolvimento das comunicações e dos recentes descobrimentos tecnológicos. Estes últimos, são precisamente aqueles que estimulam e favorecem os movimentos da população.
A globalização e os movimentos populacionais são duas das consequências lógicas dos novos fluxos de comunicação e informação, que permitem realizar transacções quase em simultâneo e quase sem custos mesmo entre lugares muito distantes geograficamente e possibilitam o conhecimento em tempo real do que se passa a milhares de quilómetros. A globalização e os movimentos populacionais parecem alimentar-se reciprocamente. A globalização favorece os fluxos populacionais e estes contribuem para que a globalização avance de forma imparável.
Tal como as migrações, a globalização é um fenómeno complexo. A sua complexidade manifesta-se não apenas nos factores que a propiciam, como também nas suas manifestações tendo em conta que se fala de uma cultura global, de crises globais, do pensamento único, conflitos globais, um mercado global, a deterioração global do meio ambiente.
Quando se procura uma aproximação ao estudo da globalização, o que sobressai de imediato é que se trata de um processo e como tal ele é histórico e dinâmico. A maioria dos autores que estudam a temática da globalização preferem focar o seu interesse no processo relativamente recente onde se evidencia uma interdependência crescente entre o conjunto dos países do mundo e que surge como consequência do aumento do volume e da variedade das transacções fronteiriças de bens e serviços, assim como de fluxos internacionais de capitais e pessoas e pela difusão acelerada e generalizada da tecnologia.
A globalização apresenta-se como o resultado natural de outros acontecimentos prévios: a internacionalização e a transnacionalização, e no seu desenvolvimento três etapas bastante diferenciadas:
A primeira decorre no período compreendido entre o final da II Guerra Mundial e o início dos anos 70 quando à crise do sistema de Bretton Woods se junta o impacto negativo do primeiro choque petrolífero, coincidindo com uma etapa de grande mobilidade de capitais e com o fim dos anos de ouro do crescimento dos países industrializados.
A segunda caracteriza-se pelo grande esforço para desenvolver instituições internacionais de cooperação financeira e comercial, assim como pelo auge do comércio de manufacturas e a coexistência de vários modelos de organização económica.
A terceira e última etapa, com uma considerável presença de empresas transnacionais e uma ampla mobilidade dos capitais, pretendeu homogeneizar os modelos de desenvolvimento, outorgando um protagonismo quase absoluto ao mercado, sobre tudo depois da derrocada dos últimos redutos dos regimes de economia planificada.
A complexidade do processo de globalização manifesta-se não apenas na sua génese e consequências, como também no sucesso de que no seu seio coabitam duas forças de sentido contrário: por um lado, tem-se a homogeneização, por outro, permite-se e fomenta-se a diferenciação e reordenam-se as desigualdades sem se chegar a suprimi-las.
No próximo número: Factores Explicativos da Globalização e Consequências da Globalização.
